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Stravinsky Produções Culturais  |  São Paulo • SP  |  Brasil

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CONCERTOS 2019
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Irineu Franco Perpétuo é um tradutor e jornalista brasileiro especializado em literatura russa e em música clássica, sendo um dos principais colaboradores da Revista Concerto, além de importante entusiasta da literatura russa e da cultura musical clássica da cena paulistana.

POR

IRINEU FRANCO PERPETUO

Quando o alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827), em 1801, aos 31 anos de idade, publicou seus primeiros quartetos de cordas (os seis Op. 18), a prática de escrever para dois violinos, viola e violoncelo ainda era relativamente recente. Pois habitualmente se atribui a paternidade do quarteto de cordas ao austríaco Joseph Haydn (1732-1809), professor de Beethoven, que estava vivo e ativo quando o ilustre pupilo compôs suas obras iniciais no gênero.

Se Haydn é considerado o “pai” do quarteto de cordas (não propriamente inventando a forma, mas estabelecendo o paradigma que seria seguido pelas gerações subsequentes de compositores), Beethoven revolucionou-o decisivamente. Como fez em quase todos os campos a que se dedicou (e especialmente nas sinfonias e sonatas para piano), o músico de Bonn deixou um robusto conjunto de 16 quartetos que dilatou incomensuravelmente a

ambição, o escopo e a complexidade da escrita para a formação.

Dentro da revolução beethoveniana, os últimos quartetos de cordas ocupam um lugar especial. Depois de compor a Nona Sinfonia, em 1824, Beethoven dedicou os dois anos e meio que lhe restavam de vida quase que exclusivamente à composição de quartetos:

Op. 127, Op. 130, Op. 131, Op. 132, Op. 135 e Grande Fuga (Op. 133). Como se, após a sinfonia extrovertida e monumental, com uma grande mensagem pública de congraçamento da humanidade, o compositor agora precisasse se voltar para si mesmo.

Isolado do mundo pela barreira da surdez, Beethoven tomava o caminho da experimentação, da pesquisa de linguagem, criando obras visionárias que uniam a mais elevada especulação intelectual à expressividade mais profunda e pessoal. 13º quarteto de Beethoven pela ordem de composição, e 15 o pela de publicação, o Op. 132 faz parte da trinca que o compositor escreveu a pedido do príncipe russo Nikolas Galitzin. Extremamente compensadora do ponto de vista artístico, a encomenda de Galitzin revelou-se prejudicial do ponto de vista financeiro: após enviar um adiantamento ao compositor, o fidalgo só pagaria a conta a Karl, sobrinho do músico, 25 anos após o falecimento de Beethoven, em 1852. Em cinco movimentos (em vez dos quatro que eram convencionais naquela época), a obra estreou em 1825, em Viena. Se algumas criações tardias de Beethoven escaparam à compreensão de seus contemporâneos, e só foram entendidas pela posteridade, essa teve aceitação imediata: há relatos de gente chorando na estreia, e o êxito foi tamanho que uma nova performance foi marcada, dois dias depois. Em uma obra-prima desse quilate, é difícil escolher um pedaço ou trecho de maior relevância.

 

Não parece despropositado afirmar, contudo, que o centro de gravidade do quarteto é seu terceiro e mais longo movimento, intitulado Heiliger Dankgesang eines Genesenen an die Gottheit, in der lydischen Tonart (Sagrada canção de ação de graças à divindade, em modo lídio).

 

Se esse trecho tem um  personagem, é o próprio Beethoven, convalescendo de uma doença. Para não deixar dúvidas do caráter confessional da obra, o compositor coloca, em meio ao hino solene e etéreo, episódios alegres de dança, que ele chama de Neue Kraft fühlend (Sentindo força nova). Debruçando-se sobre uma experiência pessoal e individual, Beethoven soube transfigurá-la em um artefato estético de caráter universal, e infundir em todos os ouvintes de seu quarteto o júbilo da força nova que o invadia com a convalescença. O Quarteto Op. 132 é uma obra restauradora.